Rafael Pereira, Edição: Rodrigo Turrer
“CRIAR uma onda” é expressão antiquada, meio anos 80. Aos ouvidos de hoje significa “fazer pirraça”, “criar confusão”. Se os planos do Google derem certo, “onda” voltará a ser a gíria do momento – com significado reeditado, como “googar” passou a significar “pesquisar na internet”. Na semana passada, a empresa mandou cerca de 100 mil convites para sua nova ferramenta, o Google Wave . A wave, ou onda em inglês, está sendo anunciada como substituto do e-mail nosso de cada dia. E os principais jornalistas de tecnologia e blogueiros, em geral céticos, estão surpreendentemente animados com a ideia.
Não é para menos. O e-mail, tal como o conhecemos, existe há cerca de 20 anos. Em tempos de inovações tecnológicas caducando em menos de um ano, é um espanto imaginar que ele esteja há tanto tempo em nossa vida. Criar um e-mail é o primeiro passo para quem começa a se aventurar na internet. Só em 2009 a ferramenta perdeu para redes sociais como Facebook e Orkut nas estatísticas mundiais de tempo gasto na web.
O Google Wave é uma integração entre o velho e-mail, as mensagens instantâneas e as redes sociais. É também uma plataforma de edição coletiva de documentos. Um ambiente virtual para reunir pessoas e discutir como foi seu dia, um trabalho de faculdade, a produção de um filme. Dito assim, pode parecer puro marketing. Vamos, então, imaginar um uso prático numa atividade corriqueira: combinar uma festa com os amigos. Hoje, você escreve o convite no corpo da mensagem, coloca o endereço de e-mail de seus amigos e aperta “Enviar”. Seus amigos recebem o e-mail. Os que ficam animados respondem algo como “Claro que vou!”. Os que não gostam respondem para informar a ausência. Os contrariados dão sugestões. “Essa cerveja é uma porcaria, vamos comprar outra!” Cada uma das respostas será um e-mail diferente, ocupando espaço em sua caixa de entrada e na deles.
O Google Wave vai integrar e-mail, mensagens instantâneas, redes sociais e funções multimídias.Os participantes poderão colaborar.
Como seria a organização dessa festa com o Google Wave? Você cria uma nova wave, ou onda. Com movimentos no mouse, arrasta os amigos que quer chamar para participar dela. Cada letra que você escrever aparecerá para eles em tempo real. Quem estiver on-line pode escrever ao mesmo tempo, no mesmo espaço, dando sugestões e comentando. Pode-se criar uma pesquisa abaixo do convite para que os amigos confirmem ou não a presença com um clique. Pode-se acrescentar um mapa do local ou um vídeo que mostra como a festa anterior foi animada. Todos podem comentar na mesma hora, no mesmo lugar, como se tivessem acesso ao mesmo e-mail. Os desanimados podem ser retirados da onda, e novas pessoas podem ser adicionadas. Para que os novos amigos não se percam com as combinações, basta apertarem o botão “Playback” para acompanhar, passo a passo, a ordem dos acontecimentos.
Esse é apenas um exemplo das possibilidades abertas pelo Google Wave. No caso de um artigo científico escrito por duas ou mais pessoas, por exemplo. Em vez de uma troca intensa de e-mails para informar cada modificação feita, os autores poderão estar na mesma onda, escrevendo o documento no mesmo lugar e deixando observações e críticas para os demais. Até processos complicados como a produção de um filme são facilitados. É só reunir os envolvidos – diretor, roteirista, produtor, atores – em uma mesma onda.
Desde que foi anunciada a nova ferramenta, profissionais de várias áreas escreveram na internet sobre como ela pode ser revolucionária. O tom elogioso é quase unânime, mas há restrições. A condição de experimento da ferramenta provoca lentidão para abrir “ondas” muito longas. Os usuários atuais só podem se comunicar com quem também tenha Wave. E, por ser uma ferramenta complexa, com muitas funções, é bem menos intuitiva e fácil de usar que o e-mail gratuito do Google, o Gmail. Esse é o principal empecilho para a inovadora e promissora ferramenta vingar e cair no gosto popular.
Por isso mesmo o Google Wave está em fase de testes. Entre os 100 mil convidados para entrar na onda, na semana passada, estão os profissionais de tecnologia e comunicação dispostos a criar novas funções e ajudar a melhorar a ferramenta. As previsões otimistas dão conta de que o Wave só estará pronto no ano que vem. Até lá, é esperar receber um dos disputados convites para experimentar a novidade.
Matéria publicada na Revista Época de 04/10/2009